terça-feira, 12 de abril de 2011

Rotina descabelada


O relógio antigo, no centro da parede já descorada, desobedeceu a temporada de férias e correu pelo tempo.
Sem nada a perder, ela pediu aos céus paciência e um pouco de paixão, em troca recebeu um pacote de coragem e um convite à liberdade. Riu de graça e achou digno!
O tempo chegou e não ficou nem para uma xícara de chá quente. E o hoje já era ontem.
Com um sorriso feito de retalhos em tons de rosé, ela não esperava mais cerrar os olhos para sonhar de novo. Agora, já sonhava de olhos abertos, que era para se realizar logo. Já que o tempo andava de mãos cerradas com a pressa.
E o tempo não esperou mesmo.
Parecia ontem. Ainda cedo ela encaixotava tudo, com um sorriso desesperado estampando a inocência de uma beleza curiosa.
Prometeu ao vento ser forte nas quatro estações do ano e, sem pensar, partiu. Deixando para trás um afeto conhecido, uma amizade antiga e algumas promessas saturadas.
Enquanto outros se espantavam com indiferença e audácia, ela ria e, de braços dados com a liberdade, virou a próxima esquina sem querer olhar pra trás.
Lá fora, os limites não foram medidos e as vontades não ficaram para depois. O desejo sempre morou ao lado, atentando a insegurança e fazendo pirraça com a loucura, enquanto a coragem se mostrava uma amante fiel. Até a cura do tédio, ouvi dizer que ela reinventou.
E hoje, mal acostumada, ela já não compreende as normas como antes e as emoções, agora, são medidas pelo instantâneo.
O tempo continuou correndo, com ou sem pilhas nos ponteiros. Simples assim.
Entre uma estação e outra, ela só tentou deixar o bonito, ainda mais lindo, jogando fora as regras de sobrevivência. Porque a vida sem roteiros se tornou um retrato único, dessa rotina descabelada.

domingo, 3 de abril de 2011

Doce ilusão


O estalos de uma garoa arranjada costuram, com linhas escuras, o céu lá fora. E arrasta pra cá, antecipadamente, o silêncio negro de um noite inquieta.
Algumas gotas finas parecem bailar aleatoriamente pelo ar e somem sem tocar o chão. Enquanto outras, com ar de desespero se jogam sem pensar e, como suicidas, se quebram no solo.
Os minutos não saem do lugar, mas a garoa que antes continha um ar de graça e ingenuidade, agora, conquista força e maioridade.
E ao ritmo de uma tempestade jovem, o receio pulsa forte.
Com o medo roçando a ponta dos dedos, ela quase abraça o desespero. E, em tempo, com as mãos frias tapa os ouvidos e cega os olhos com as pálpebras.

Até os ponteiros já sentem frio. E, por medo, o tic-tac do relógio anuncia um adeus desajustado. Agora, tudo parece imóvel aqui.

Quando, de surpresa, um som vindo da sala suaviza o frio de medo que apalpa os longos fios castanhos do cabelo jovem e, de leve, cria algumas notas de graça no velho piano Steinway.
O ritmo avança com veracidade as teclas empoeiradas e, com uma combinação de toques afiados, o volume alto soa chamando a atenção, ensurdecendo as vozes de chuva que, insistentes, ainda se penduram pela vidraça.
A curiosidade entra em cena e, jogando todo seu charme, provoca. Os traços delicados de garota já não resiste ao curioso e, então, ela abre os olhos. Mas, as extremidades cegas da noite limitam o olhar jovem.
Ainda assim, ela acorda a coragem e afasta-se direcionando os passos pelo corredor, apalpando com insegurança as paredes escuras.
O som do piano parece correr, em passos certeiros, de encontro a ela e, com força, abraça o medo restante, entorpecendo os sentidos. É como se as notas, com leveza e suavidade, dançassem graciosas pelo corredor, conduzindo-a até o centro da sala.
Ao toque leve e preciso de Comptine D'Un Autre Ete L'Apres Midi, os traços de garota iam surgindo tímidos na porta lateral da velha sala.
E agora sim, ela parecia poder enxergar tudo, ainda que o ambiente estivesse banhado pelo breu.
E lá estava. No canto direito da sala, lá estava ele. Concentrando uma beleza absurda na superfície das teclas.
Com uma confiança precisa na ponta dos dedos ele seguia o toque, redesenhando cada nota e transformando-as na canção predileta da jovem com traços delicados.
Ele voltara, como em dias de tempestades, para espantar daqui o medo.Doce ilusão. Pobre garota. Nada mais era real, como foi um dia.
Ele voltara sim, mas por poucas horas. Somente em tempos de tempestades e solidão.
Mas, no fundo, ela já sabia quase sem querer, que a chuva acalmaria e a doce ilusão se tornaria, outra vez, apenas uma lembrança amarga.